Artigo de Carlos Leite para a Revista NE
Há 100 anos, apenas 10% da população mundial
vivia em áreas urbanas.
Atualmente, passamos de 50% e até 2050 seremos mais de 75%
A cidade é o palco de todas as trocas, dos grandes e pequenos negócios à
interação social, e o lugar em que a cultura abrange e interliga as nações de
todo o planeta. Nela também crescem as favelas e o trabalho informal. Estima-se
que dois em cada três habitantes vivam em áreas desse tipo ou em
sub-habitações. Nesse contexto, emergiram as megacidades do século 21, que
concentram mais de 10 milhões de habitantes, cada uma. Em época de imperativa preocupação com o desenvolvimento sustentável, é de destacar que dois terços do consumo mundial de energia se deem nas cidades, que são responsáveis por aproximadamente 75% de todos os resíduos gerados. Portanto, ao tratar de aquecimento global, é necessário falar de cidades mais sustentáveis.
O grande desafio estratégico do momento são as metrópoles. Se elas não funcionam bem, o planeta se torna inviável. Porém metrópoles contemporâneas compactas, como as capitais dos países escandinavos, propiciam o maior desenvolvimento sustentável. A razão é esta: elas concentram tecnologia e novas oportunidades de crescimento e geram inovação e conhecimento. Eis o grande desafio apresentado a grandes cidades. Elas são o futuro do planeta urbano e devem ser vistas como oportunidades e não como problema.
Virão delas as
respostas para um futuro verde. As melhores são as que sabem se renovar e
funcionam como um organismo. Quando adoecem, se curam, mudam. O caminho é
refazê-las, em vez de expandi-las, compactá-las, deixá-las mais sustentáveis e
transformá-las numa rede estratégica de núcleos policêntricos compactos e
densos. As cidades desenvolvidas são as cidades sustentáveis, inclusive socialmente. Mais verdes e inclusivas. São normalmente as mais antigas, pertencentes aos países ricos. Ali os maiores dramas já foram resolvidos e agora há oportunidade e recursos para a implementação de melhorias que megacidades emergentes, como São Paulo e Xangai, ou países subdesenvolvidos, como Nigéria e Senegal, estão muito longe de poder buscar. É muito mais urgente para São Paulo, por exemplo, direcionar esforços e recursos para regenerar territórios centrais e dotá-los de habitações construídas rapidamente por meio de sistemas industrializados do que se preocupar com a arborização e o mobiliário urbano de bairros ricos. Não há cidade sustentável sem a desejável sociodiversidade territorial.
Carlos Leite, Arquiteto, pós-doutorado em
Desenvolvimento Urbano pela Cal Poly University e docente da Universidade
Presbiteriana Mackenzie

