por: Fernando Henrique Cardoso ex-presidente da República
Houve tempo em que se dizia que ou o Brasil acabava com a saúva
ou a saúva acabaria com o Brasil. As saúvas andam por aí, não acabaram, nem o
Brasil acabou. Será a mesma coisa com a corrupção? Que ela anda vivinha por aí
não restam dúvidas, que acabe com o Brasil é pouco provável, que acabe no
Brasil, tampouco. Mas que causa danos enormes é indiscutível. Haverá quem diga
que sempre houve corrupção no País e pelo mundo afora, o que provavelmente é
certo, mas a partir de certo nível de sua existência e, pior, da aceitação
tácita de suas práticas como “fatos da vida”, se ela não acaba com o País,
deforma-o de modo inaceitável. Estamo-nos aproximando desse limiar.
Há formas e formas de corrupção, especialmente das instituições
e da vida política. As mais tradicionais entre nós são o clientelismo – a
prática de atender os amigos, e os amigos dos amigos, nomeando-os para funções
públicas -, a troca de favores e o patrimonialismo, isto é, a confusão entre
público e privado, entre Estado e família.
Tudo isso é antigo e deita raízes na Península Ibérica. A frase
famosa “é dando que se recebe”, de inspiração dita franciscana, referia-se mais
à troca de favores do que ao recebimento de dinheiro. Por certo, um sistema
político assentado nessas práticas já supõe o desdém pela lei e é tendente a
permitir deslizes mais propriamente qualificados como corrupção. Mesmo quando
não haja suborno de funcionários ou vantagem pecuniária pela concessão de favores,
prática que os juristas chamam de prevaricação, os apoios políticos obtidos
dessa maneira são baseados em nomeações que implicam gasto público.
Progressivamente, tais procedimentos levam a burocracia a deixar de responder
ao mérito, ao profissionalismo. Com o tempo, as gorjetas e mesmo o desvio de
recursos – o que mais diretamente se chama de corrupção – aumentam como
consequência desse sistema.
Nos dias que correm, entretanto, não se trata apenas de
clientelismo, que por certo continua a existir, ao menos parcialmente, mas de
algo mais complexo. Se o sistema patrimonialista tradicional já contaminava
nossa vida política, a ele se acrescenta agora algo mais grave. Com o
desenvolvimento acelerado do capitalismo e com a presença abrangente dos
governos na vida econômica nacional, as oportunidades de negócios entremeados
por decisões dependentes do poder público ampliaram-se consideravelmente. E as
pressões políticas se deslocaram do mero favoritismo para o “negocismo”. Há
contratos por todo lado a serem firmados com entes públicos, tanto no âmbito
federal como no estadual e no municipal. Crescentemente, os apoios políticos
passam a depender do atendimento do apetite voraz de setores partidários que só
se dispõem a “colaborar” se devidamente azeitados pelo controle de partes do
governo que permitam decisões sobre obras e contratos. Mudaram, portanto, o
tipo de corrupção predominante e o papel dela na engrenagem do poder. Dia
chegará – se não houver reação – em que a corrupção passará a ser condição de
governabilidade, como ocorre nos chamados narcoestados. Não, naturalmente, em
função do tráfico de drogas e do jogo (que também se podem propagar), mas da
disponibilidade do uso da caneta para firmar ordens de serviço ou contratos
importantes.
Não por acaso se ouvem vozes, cada vez mais numerosas, na mídia,
no Congresso e mesmo no governo, a clamar contra a corrupção. E o que é mais
entristecedor, algumas delas por puro farisaísmo, como ainda agora, em
clamoroso caso que afeta o Senado e sabe Deus que outros ramos do poder. O
perigo, não obstante, é que se crie uma expectativa de que um líder autoritário
ou um partido-salvador seja o antídoto para coibir a disseminação de tais
práticas. Em outros países já vimos líderes supostamente moralizadores se
engolfarem no que diziam combater, e a experiência com partidos “puritanos”,
mesmo entre nós, tem mostrado que nem eles escapam, aqui ou ali, das tentações
de manter o poder ao preço por ele cobrado. Quando este passa a ter a
conivência com o setor gris da sociedade, lá se vão abaixo as belas palavras,
deixando um rastro de desânimo e revolta nos que neles acreditaram.
A experiência histórica mostra, contudo, que há caminhos de
recuperação da moral pública. Na década de 1920, nos Estados Unidos, havia
práticas dessa natureza em abundância. O controle político exercido por bandos
corruptos aboletados nas câmaras municipais, como em Nova York, por exemplo,
onde o Tammany Hall deixou fama, é arquiconhecido. As ligações entre o
proibicionismo do álcool e o poder político, da mesma forma. Pouco a pouco, sem
nunca, por certo, eliminar a corrupção completamente, o caráter sistêmico desse
tipo de procedimento foi sendo desmantelado. À custa de quê? Pregação, justiça
e castigo. Hoje, bem ou mal, os “graúdos”, ao menos alguns deles, também vão
para a cadeia. Ainda recentemente, em outro país, a Espanha, depois de rumoroso
escândalo, alto personagem político foi condenado e está atrás das grades. Não
há outro meio de restabelecer a saúde pública senão a exemplaridade dos líderes
maiores, condenando os desvios e não participando deles, o aperfeiçoamento dos
sistemas de controle do gasto público e a ação enérgica da Justiça.
A despeito do desânimo causado pela multiplicação de práticas
corruptas e pela impunidade vigente, há sinais alvissareiros. É inegável que os
sistemas de controle, tanto os tribunais de contas como as auditorias
governamentais e as Promotorias, estão mais alerta e a mídia tem clamado contra
o mau uso do dinheiro e do patrimônio públicos. A ação do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) e as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a validade da Lei
da Ficha Limpa mostram que o clamor começa a despertar reações. Mas é preciso
mais. Necessitamos de uma reforma do sistema de decisões judiciais, na linha do
que foi proposto pelo ministro Peluso, para acelerar a conclusão dos processos
e dificultar que bons advogados posterguem a consumação da justiça. Só quando
se puserem na cadeia os poderosos que tenham sido condenados por crimes de
colarinho branco, o temor, não da vergonha, mas do cárcere coibirá os abusos.
Não nos esqueçamos, porém, de que existe uma cultura de
tolerância que precisa ser alterada. Não faltam conhecidos corruptos a serem
brindados em festas elegantes e terem quem os ouça como se impolutos fossem. As
mudanças culturais são lentas e dependem de pregação, pedagogia e
exemplaridade. Será pedir muito? E não nos devemos esquecer de que a
responsabilidade não é só dos que transgridem e da pouca repressão, mas da
própria sociedade – isto é, de todos nós -, por aceitar o inaceitável e reagir
pouco diante dos escândalos.
