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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Gerente Distraída

 
Clovis Rossi – Publical no Jornal El Pais

Deve ser todo um recorde mundial: em escassos nove meses, seis ministros brasileiros foram demitidos, cinco deles por suspeita de corrupção. O sexto (Nelson Jobim, da Defesa) foi afastado por incontinência verbal, que não deixa de ser uma forma de corrupção.

O mais curioso é que há um outro provável recorde mundial nessa história: a responsável por todas as demissões, a presidente Dilma Rousseff, não só não teve sua imagem arranhada como está sendo apontada, em certos círculos, como responsável por uma faxina na Esplanada dos Ministérios, aquela longa avenida de Brasília, em que ficam enfileirados os ministérios (não todos, porque são tantos que não cabem lá, por grande que seja a avenida).

Esse tipo de leitura é, no mínimo, superficial. Baseia-se no fato - real - de que todos os afastados não são indicações de Dilma, mas herança de seu padrinho e antecessor 

Luiz Inácio Lula da Silva. É verdade, mas é apenas parte da verdade.
No governo Lula, Dilma era uma espécie de primeiro-ministro, como chefe da Casa Civil, supervisora geral do governo. Ora, todos os escândalos que acabaram resultando na demissão de ministros referem-se a fatos ocorridos no governo do qual Dilma era a supervisora. Portanto, trata-se de uma gerente sumamente distraída, que não só não se deu conta do que ocorria às suas costas (ou à sua frente) como aceitou designar para o ministério pessoas que, se tivesse sido devidamente supervisionadas, jamais ocupariam outra vez cargos públicos.

Pior: os demitidos foram substituídos por representantes das mesmas famílias políticas (ou "famiglias", ao gosto do leitor), que se tornaram donas de fatias do governo. É uma disfunção já clássica na política brasileira: o presidente nomeia um político para chefiar um ministério e este preenche todos os cargos de confiança, abaixo dele, com seus correligionários.

Cada ministério acaba virando uma "caixa preta" - o que é um convite a negócios, legais ou irregulares, com seus amigos e partidários. Posto de outra forma, o ministério trabalha para o partido, não para o público.
Torna-se assim perfeitamente razoável que uma colunista política de grande prestígio, como Eliane Cantanhêde, da "Folha de S. Paulo", já especule com a possibilidade de que o recorde mundial de demissões em poucos meses logo seja batido pelo próprio governo que o estabeleceu.